segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Homenagem Póstuma


David Chase, um argumentista com muita experiência em televisão, mas sem nada de significativo no currículo, propôs a série Sopranos a duas grandes redes norte-americanas, mas viu o seu projecto ser rejeitado por ambas. Depois de algum tempo, o canal por cabo HBO ponderou a proposta e em 1999 Sopranos foi desenvolvida com qualidades e características impossíveis numa emissora de canal aberto. Não só por serem outros os limites de auto censura na violência e na linguagem, mas também porque a escolha do protagonista, James Gandolfini, não teve que passar pela aprovação dos lugares comuns estéticos, habituais na televisão de canal aberto. Gandolfini: careca, carrancudo e barrigudo representa Tony Soprano, chefe de duas famílias, a sua própria e a da máfia de New Jersey.

Eduardo Cintra Torres apresenta no seu texto “A mil dos anos dos Sopranos”, a sua visão da série: "Há uma mensagem implícita em Sopranos: as coisas nunca são apenas o que são, dizem mais do que dizem à superfície - assim é o poema, assim são os Sopranos." O critíco de televisão sobressai a luta entre o bem e o mal na série e a confusão que esta pode provocar nos espectadores: "Os Sopranos podem viver do crime, extorsão e ilegalidade, mas quando um polícia honesto multa Tony por excesso de velocidade, a mulher, que sabe muito bem donde vem o dinheiro para a casa, comenta a seu lado que os polícias bem podiam era andar atrás dos traficantes de droga." Cintra Torres compara esta série com O Padrinho de Francis Ford Coppola e premeia a sua genialidade afirmando que esta “é uma de três ou quatro que podem aspirar ao galardão informal de melhor série televisiva de sempre.”

Com as primeiras cinco temporadas já exibidas em Portugal, a sexta e última temporada começou a ser exibida nos Estados Unidos a 3 de Março de 2006.

O sucesso dos Sopranos foi tão grande, que a série se tornou uma âncora para a toda a programação da HBO. Com vários galardões ganhos, David Chase, o criador da série foi o mais premiado, principalmente a nível monetário com 15 milhões de dólares por temporada.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

RUN FORREST, RUN!!!!!!


Para os amantes de cinema aqui fica este docinho. Beijos para todos.

Lost... in a Plot


A série Lost criou aquilo que já foi apelidado de Lostmania, sendo o melhor exemplo de como a televisão movimenta dinheiro muito para além dos ecrãs. Nos últimos três anos a ABC lançou livros (destaque para o caso de sucesso Lostpedia), colecções de roupa, Goodies (pequenos bonecos de plástico que reproduzem personagens de ficção) e provocou a discussão no seio de diferentes meios. Uma busca pela série Lost no Google, remete-nos a 455 milhões de entradas e num qualquer fórum sobre esta série (existem centenas em línguas diferentes), um tópico novo merece por vezes mais de 1000 comentários de usuários.
Lost é como na maioria das séries de sucesso, uma produção norte americana. A espinha dorsal do argumento é a queda de um avião numa ilha aparentemente deserta e a consequente forma como os sobreviventes vão, passa a redundância, sobreviver. Lost começou a ser desenvolvido em Janeiro de 2004, quando o então director da ABC, Lloyd Braun encomendou um argumento baseado numa ideia que ele afirmava ter há algum tempo, uma mistura do filme Cast Away e o reality show Survivor. Braun contratou J.J. Abrams, criador da série de culto Alias, para juntamente com Damon Lindelof, criar o estilo único da série e das suas personagens. O primeiro episódio foi para o ar nos Estados Unidos no dia 22 de Setembro de 2004 naquele que foi o episódio de um programa mais caro da história da televisão. Curiosamente e mesmo depois de centenas de prémios ganhos, Lloyd Braun foi despedido pela Disney, dona da cadeia ABC, por ter aprovado um projecto tão caro e arriscado. Em relação às críticas pela falta de respostas dadas na ilha, os argumentistas respondem: “Os críticos são fãs da série e quando eles estão a fazer uma critica negativa, fazem-na com o seu cérebro de fã a funcionar e não objectivamente como críticos de televisão.” Prepotência ou não, o certo é que a ABC assinou no início deste mês um contrato milionário até 2010 com J.J. Abrams e Damon Lindelof, altura em que a série contará a sua sexta temporada. Até lá ficarão por resolver os mistérios que assolam a ilha: homens invisíveis, ursos polares que saltam de livros de banda desenhada, mortos que voltam à vida, indivíduos que não envelhecem e o já carismático monstro lostzilla que não parece mais do que uma densa nuvem de pó.
PS- Sou uma lostmaniac... Também está definitivamente no meu top 3. E para quem sabe do que eu estou a falar... Digam lá que o "The man behind the curtain" não vos arrancou da cadeira... God loves you as He loved Jacob.

Nip/ Tuck: A Face Lift of a Drama



Nip/Tuck é uma polémica série dramática norte-americana. Foi criada por Ryan Murphy para o canal por cabo FX Networks e exibida pela primeira vez a 22 de Julho de 2003, tornando-se na estreia com mais espectadores na televisão por cabo americana. Nip/Tuck segue a vida de dois cirurgiões plásticos de Miami, Sean McNamara (Dylan Walsh) e Christian Troy (Julian McMahon). A série, embora não seja estritamente uma soap opera, apresenta alguns “story arcs” (tramas que se desenvolvem ao longo da série e que se ligam ao longo dos episódios). A série tem atraído criticas de grupos como Parents Television Council e outros, devido às suas cenas explicitas de procedimentos cirúrgicos e actos sexuais.
A série é definida pelo elenco e produtores como: “Non-Ortodox, agressive, caotic, dangerous, tender, emocional, delicious, rude and sometimes ridiculous…”
Na verdade Nip/ Tuck dificilmente se encontra dentro de uma definição de género, uma vez que é uma mistura de vários referentes e ao mesmo tempo uma fórmula inédita na televisão mundial.
Ryan Murphy afirma que a série é sobre as escolhas que as pessoas fazem na vida e sobre as consequências que estas produzem. Não é acerca de finais felizes e sim acerca de pessoas ambíguas, moralmente incorrectas de quem o publico pode até nem simpatizar.
Aquando do processo de preparação da série, Ryan Murphy e os restantes produtores sentiram-se divididos entre fixar a série em Miami ou em Los Angeles. Optaram pela primeira cidade, uma vez que esta lhes oferecia mais alternativas a nível de argumento. Los Angeles é o tipo de cidade que está e estará sempre associada ao mundo do cinema enquanto que Miami para além de ser a cidade de acolhimento de muitas etnias, é uma cidade onde o sol e a praia são a prioridade de muitos moradores. Assim sendo, a tirania da beleza e da perfeição exige que cada vez mais pessoas recorram à cirurgia plástica para poderem pertencer a este mundo cor-de-rosa.
Na verdade Nip/ Tuck não fala das cicatrizes externas, daquelas que se curam com ou depois de uma cirurgia plástica e sim das internas, daquelas que não se podem curar. Nip/ Tuck mostra que a maioria das pessoas que quer mudar alguma coisa no seu exterior, é porque se sente descontente com o seu interior. Talvez por isso a cirurgia plástica seja viciante, porque um individuo descontente consigo próprio, nunca vai atingir a perfeição mesmo que seja, como diria Christian Troy, “a perfect ten”.
Ao mesmo tempo que mostra o drama na vida das personagens, a série enche-nos os olhos com visões de roupas de griffes, carros de alta cilindrada, tecnologia de ponta e casas saídas de revistas de decoração, que já fizeram com que críticos apelidassem a série de “trágico-comédia vestida de Armani”. Para Ryan Murphy, apenas num mundo tão superficial como o de Miami e o das operações plásticas se pode mostrar a crueldade e o horror que existe em cada meio, por mais glamour que tenha. Este é o tipico caso em que os opostos são ilustrativos e até imprescindíveis.
Mas Nip/ Tuck não tem a intenção apenas de chocar sensibilidades, de esticar a corda ao máximo possível. A maioria das histórias que aparecem em Nip/ Tuck são baseadas em casos reais e a série pretende mostrar assim que a cirurgia plástica tem mais importância na vida das pessoas do que aquilo que elas realmente querem admitir.
Para John Hensley, actor que interpreta o papel de Matt, a ambiguidade das personagens é o principal ingrediente para fazer desta uma série de sucesso: “There no good guys at Nip/Tuck, and that’s what I love about it”.
Nip/Tuck fala essencialmente de amor. Não de um ponto de vista romântico ou convencional e sim de uma forma nunca abordada na televisão. Christian é apaixonado por Júlia. Sean é apaixonada por Júlia. Júlia sente-se dividida entre a paixão por Christian e o amor por Sean. Mas a verdadeira história de amor de Nip/ Tuck não está neste trio amoroso. A verdadeira história de amor é vivida entre Sean e Christian, dois amigos que têm uma relação extremamente honesta, como raramente se consegue ver. E é aqui que Nip/ Tuck mais uma vez marca a sua diferença. Até então nunca existiu uma série cuja centralidade estivesse na história de amor entre dois homens heterossexuais, que mais do que amigos, mais do que irmãos, são a alma gémea um do outro, a outra metade da laranja.
Com desempenhos notáveis nos papéis principais; personagens secundárias extremamente ricas e bem moldadas; consultoria clínica e caracterização impecável que lhe confere verosimilhança e credibilidade nas cenas cirúrgicas; com fotografia, montagem e música irrepreensível; Nip/ Tuck arrisca-se mesmo a tornar-se, tal como anuncia no seu site de apresentação “Uma série perturbadoramente perfeita”.
PS- Está no meu top 3 das melhores séries de sempre... Para quem nao conhece... Aconselho vivamente.

Depois da Cinefilia a Telefilia

Proliferação do mercado DVD e a grande aposta nos conteúdos televisivos



Martin Scorcese, realizador consagrado, recentemente afirmou: “O Dvd foi a melhor coisa que aconteceu ao cinema”. Scorcese afirma que tem milhares de títulos e que se sente profundamente atraído pelo objecto físico, como se ao possui-lo estivesse ao mesmo tempo a possuir um bocadinho do que aquele filme representou para o cinema. Hoje em dia poucos são os filmes que levam as pessoas ao cinema. Apesar de épicos como “Guerra de Estrelas” ou infantis como “Cars”, continuarem a encher auditórios, o cinema enquanto sala de espectáculos perdeu muito da sua mística e grandiosidade. O mercado de Dvd em contrapartida está em crescimento nos últimos anos, fenómeno que nem a crescente adesão à pirataria veio prejudicar. Na verdade cada vez mais são os apreciadores de cinema que gostam de apreciar um bom filme no conforto da sua casa, onde não têm de ouvir comentários desapropriados dos vizinhos da cadeira do lado nem enfrentar o irritante ruído do mastigar das pipocas. Para além disso, ir ao cinema é cada vez mais caro, enquanto que o preço dos Dvd´s para compra tem descido vertiginosamente, impulsionando o crescente número de coleccionadores. O facto de os aparelhos de televisão terem cada vez mais qualidade a preços mais acessíveis, vem acentuar esta tendência. Hoje em dia um blockbuster no cinema, é passado três meses um blockbuster no clube de vídeo e passado seis meses um blockbuster numa qualquer cadeia de televisão, pelo que uma ida ao cinema é cada vez menos justificada.
Com as séries de televisão o ciclo de vida é ligeiramente diferente das longas e curtas metragens. Uma série implica um compromisso que se pode prolongar por várias temporadas (por exemplo a série Friends durou 10 anos) e um trabalho de bastidores muito superior ao que um filme implica. Esperar pelo horário em que uma estação transmite o episódio semanal tornou-se um acto quase religioso e que faz o espectador criar uma relação mais intimista com o seu aparelho de televisão. Por outro lado os horários inconstantes e os cortes ininterruptos na programação fazem com que muitos espectadores não tenham paciência e dedicação para seguir a série assiduamente, impulsionando a compra de packs com as séries em lojas especializados. Para além desta ser uma forma de fugir à irregularidade da programação televisiva, é uma boa solução para os coleccionadores que cada vez mais se dedicam às séries de televisão em detrimento dos filmes.
Tal como há várias décadas se fala do termo “filme de culto”, é cada vez mais comum ouvir a expressão “série de culto”. Este é um fenómeno que começou com Twin Peaks de David Lynch e explodiu no século XXI com séries como Lost, Sopranos e Nip/ Tuck. A proliferação do mercado Dvd, veio abrir caminho para uma nova geração de séries cujo período de vida ultrapassa a exibição televisiva. Os próprios clubes de vídeo fazem agora a sua grande aposta nas séries em Dvd e o lançamento de cada nova temporada para aluguer é motivo de grande destaque ao nível do lançamento de uma grande produção cinematográfica.
Isto torna o mercado cada vez mais exigente e faz com que produtores e argumentistas de televisão se esforcem cada vez mais a nível estético e formal, aproximando estas disciplinas do cinema e afastando-as da televisão. As séries actuais são cada vez mais rodadas de forma cinematográfica, levando cada episódio um período de tempo de concretização equivalente ao de uma longa metragem. Seja a nível de argumento, de desenho das personagens, de cenários, de fotografia, de montagem ou de caracterização, as séries vestem cada vez mais a identidade do cinema, pondo as grandes produtoras a apostar neste nicho e actores de renome a catapultar do grande para o pequeno ecrã. Exemplo disso são os actores Alec Baldwin, Charlie Sheen, Brooke Shields, Kyra Sedgwick e Geena Davis que após anos de sucessos cinematográficos se renderam à tentação de serem as estrelas do seu próprio show televisivo. Por outro lado a televisão devolveu a fama a actores esquecidos do grande público, como aconteceu com Teri Hatcher que com Desperate Housewives voltou às luzes da ribalta. O mesmo aconteceu anos antes com Sarah Jessica Parker que após uma sequencia de filmes série B conheceu o sucesso através de Sexo e a Cidade. Hoje Sarah Jessica Parker é uma das actrizes mais bem pagas do cinema à semelhança de Jennifer Aniston, também ela uma ex-estrela de televisão.
Lynn Fero, vice-presidente da Paramount, responsável pelos conteúdos televisivos, afirmou que a televisão é neste momento uma enorme ameaça ao cinema como nunca antes tinha sido. Numa conferência dada no Teatro Maria Matos sobre a tecnologia digital, Lynn Fero revelou que o investimento que a Paramount fez em cinema no ano 2006 foi equivalente ao que fez em televisão, algo de inédito para uma produtora de Hollywood. Fero confidenciou aos jornalistas e aos diferentes convidados na área do cinema que acredita que a televisão voltou aos seus anos dourados e que irá cada vez mais roubar espectadores às salas de cinemas. No contexto da conferência, Fero frisou ainda que a tecnologia digital é essencial para que haja uma mudança de era da cinefilia para a telefilia.

Ora vamos lá falar de televisão...


Têm me chegado queixas que o blog anda adormecido. A verdade é que entre as inúmeras noites de copos e as viagens (que graças a deus) tenho planeadas para este Verão, não sobra muito tempo para cinemas. Vi o Spider Man em Nova Iorque, na rua onde se passavam partes do filme e confesso que adorei. Se calhar imbuída por aquele espirito de Times Square, levei a coisa mesmo a sério e não foram poucas vezes que saltei da cadeira. Houve tempo para gargalhadas e até um pouco de emoção. Mas, let´s face it: filmes como Spider Man não são a razão para este blog existir. Aqui pretendo passar um bocadinho ao lado daquilo que de mais comercial se faz, apesar de (e contra mim falo), hoje ter escolhido falar de televisão.


Ultimamente vejo cerca de 3 horas diárias de uma qualquer série de televisão. Seja ao fim da tarde depois de desesperar com a falta de sol, seja à noite naquele horário em que só há televendas. Depois de ter terminado o Prison Break, a Anatomia de Grey, o Lost, o Dexter e o Dirt, resta-me adoçar o meu Verão com alguma coisa mais light como por exemplo Gilmore Girls. Faltam-me duas temporadas de sete para terminar e depois partirei para Big Love, seguido de Wheeds e depois talvez 4400. Quero todas, comer todas que valham a pena.

E apesar de este ser um negócio da china para as produtoras, não considero que maior parte delas sejam produtos comerciais. São séries com muita qualidade que são vistas por muita gente.


A seguir transcrevo um texto que fiz sobre este novo fenómeno. Espero que gostem.


PS- que deliciosa a tv em Nova Iorque... série atrás de série all night long. Dos velhinhos e amados Friends, aos actuais Scrubs até às novissimas Army's Wives. Que bom.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

INLAND EMPIRE ou como arranjar uma enxaqueca por três horas



INLAND EMPIRE. Um filme. Um remake do filme. Los Angeles. Polonia. Laura Dern actriz, dona de casa, prostituta, assassina. Espectadores que sonham com os filmes que estão a ver. Actores que têm pesadelos com os filmes que estão a fazer. Luz, muita luz. Negro, muito negro. O mesmo telefone vermelho de Mulholland Drive, o mesmo toque, o mesmo tema: Cinema - Hollywood. Uma actriz que não consegue sair da personagem, um marido que não sabe lidar com os ciumes. Um realizador que que não sabe que filme está a realizar, três coelhos em lides domésticas. Vários McGuffins que vão do gira discos a remeter para o sexo ao candeeiro em forma de pódio. A disputa de várias personalidades por um só corpo. Vampirismos, pesadelos e apropriações. Nove prostitutas a dançarem o Locomotion. David Lynch ri. Ri com vontade.

domingo, 18 de março de 2007

The Queen


Nao gostei do The Queen. Fez-me lembrar aqueles telefilmes que via nas férias em Espanha, em que havia um Carlos, uma Diana, uma Isabel e até uma Camilla a falar castelhano. O risco de se recriar uma situação real, passada apenas há 10 anos atrás é enormissimo, e neste caso não foi bem sucedido. São personagens reais que o mundo conhece demasiado bem, uma tragédia que se mantém ainda bem presente na memória cada um. Creio que Stephen Frears devia ter esperado um pouco mais de tempo. Devia ter esperado que Tony Blair já não fosse Primeiro ministro, que Isabel II já não fosse rainha. Biopics como Ray e Walk the Line funcionam bem, porque retratam épocas há muito passadas e acima de tudo porque falam de herois já mortos.

As imagens reais da Princesa Diana, Bill Clinton e Nelson Mandela que realmente passaram nas televisões de todo o mundo, assim como os testemunhos de populares e manchetes de jornais que foram publicados, não se conjugaram bem com a parte ficcionada, não houve uma harmonia entre a verdade e a ficção. A verdade é que este filme (50% imagens de arquivo/ 50% representação) tem muito pouco, ou quase nada de estética cinematográfica, não passando de uma reconstituição dos factos de alta qualidade.
Safa-se Hellen Mirren, perfeita, arrepiante... Fico feliz que o único Oscar que o filme recebeu tenha sido para esta actriz. Seria uma injustiça para os restantes nomeados (melhor filme, melhor realização, melhor argumento original) verem The Queen levar mais estatuetas para casa.

PS- The Queen foi nomeado para 6 oscares e outras dezenas de variados prémios. Para além do mais teve excelentes criticas de todas as partes do mundo. Com isto quero dizer que gostos não se discutem, e apesar de eu não ter gostado, talvez valha a pena darem uma vista de olhos para me darem a vossa opinião.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Óscares: Premiar Arte ou Industria?



Quanto vale uma nomeação aos Óscares? Segundo Randy Nelson, professor de economia no Colby College, uma nomeação ao Óscar de melhor filme, rende em média o montante acrescido de 11 milhões de dólares em resultados de bilheteira. Já uma nomeação para melhor actor ou melhor actriz pode adicionar até um milhão de dólares ao Box Office, expressão usada para designar o ranking de filmes mais rentáveis num determinado período de tempo. Por este motivo grandes produtoras como Warner Bros, Fox, Paramount, Walt Disney e Miramax investem todos os anos milhares de dólares em campanha junto dos membros da Academia para que os seus filmes sejam nomeados.
The Queen, filme nomeado na categoria de melhor filme, passou de estar exibido em 344 salas na semana antes das nomeações para 1600 salas na semana seguinte. Este aumento representou o total de 3,7 milhões de dólares em resultados de bilheteira no espaço de uma semana. Os produtores de Babel, também nomeado na mesma categoria, viram o seu filme em exibição em 900 salas na semana após 24 de Janeiro, dia em que as nomeações foram anunciadas, em oposição com as 175 salas que ocupava na semana anterior. Porém ao observar o gráfico em cima, pode-se constatar que o número de filmes no top ten após as semana das nomeações desceu de 4 até ao total de 0 filmes na semana anterior à cerimónia dos Óscares.

Vários especialistas explicam este fenómeno como algo de bastante comum, uma vez que os filmes nomeados estrearam na sua maioria há vários meses atrás. Para além disso os filmes nomeados para os Óscares, marcadamente dramas, não costumam cair no goto dos espectadores que optam por películas mais ligeiras, principalmente no género comédia e animação. No ano anterior, as receitas das cinco longas metragens nomeadas ao Óscar de melhor filme, tiveram na sua totalidade um valor bastante inferior ao de um único filme da Disney: As Crónicas de Narnia. O mesmo acontece este ano com os filmes nomeados nas principais categorias, que conseguiram resultados de bilheteira muitos baixos. Letters from Iwo Jima, considerado pelos críticos como um dos melhores filmes de ano teve nos Estados Unidos uma receita de 2 milhões de dólares. Em oposição com este resultado, o também nomeado para 4 categorias técnicas: Piratas das Caraíbas, conseguiu 400 milhões de dólares nos Estados Unidos e 1 bilião de dólares a nível mundial.


Este fenómeno, porém, não é nada de novo e tornou-se previsível para a maioria dos especialistas. O ano de 2000 foi o último em que o filme campeão de bilheteiras arrecadou também o Óscar de melhor Filme. Aconteceu com o Gladiador e apenas durante 3 vezes mais nos anos 90: The Silence of The Lambs, Forrest Gump e Titanic.

De acordo com Abraham Ravid, professor de economia e finanças na Universidade Rutgers, um Óscar não representa obrigatoriamente uma melhoria visível nos lucros de um filme e principalmente pode limitar os trabalhos posteriores de um oscarizado. Essa vertente é muito visível nos actores e actrizes premiadas, que depois de receberem o Óscar têm usualmente dificuldades em arranjar papéis. Não só porque o seu valor no mercado subiu, limitando as produções de baixo orçamento, como também por ficarem demasiados associados ao papel que lhes valeu o Óscar.
Apesar dos fracos resultados de bilheteira, os filmes de 2006 têm agora com os Óscares uma nova oportunidade para revitalizarem os lucros. Para além das sessões extra que foram feitas para os filmes nomeados, muitos deles foram já lançados em DVD, o que representa uma lufada de ar fresco em termos monetários. De acordo com a revista Variety, o filme Crash subiu cerca 150% nas vendas de DVD a partir do momento em que foram anunciadas as nomeações. O mesmo parece acontecer com Litle Miss Sunshine, que após o anúncio das suas 4 nomeações passou para o quinto filme mais vendido na Amazon.
Arte ou Industria, os Óscares hão de estar sempre associados a resultados de bilheteira e venda de DVDs. E apesar dos prémios e os elogios da crítica estarem por vezes desfasados do número de espectadores, o certo é que a Academia opta por premiar filmes que possam projectar a imagem do Óscar a nível mundial. E coincidência ou não, Crash, o filme nomeado ao Óscar de melhor filme com maior receita de bilheteiras de 2006, arrecadou o galardão máximo contra qualquer expectativa, um ano depois repete-se o “filme” com The Departed, o menos elogiado pela critica a sair o vencedor da noite, deixando para trás os impopulares Babel e Letters from Iwo Jima.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

TIA - This is Africa : Blood Diamond



Esta frase, que aparece apenas duas vezes durante quase duas horas e meia, define o que é um dos melhores filmes de 2006 (american launch). Podemos começar pela fotografia, que vem mais uma vez mostrar o valor de Eduardo Serra e que deixa a desilusão de uma não-nomeação aos oscares. A imagem, castanha e com grão, tal como a terra que Leo DiCaprio segura na mão nas ultimas cenas do filme, transporta-nos numa viagem para a Serra Leoa, onde risos e lágrimas são uma constante. Os actores, todos os actores, estão inacreditavelmente bem. (Um oscar par Leonardo DiCaprio, por favor!) Este é um filme de consciências, apela ao lado humano de cada um e tem um papel no ano de 2006 semelhante ao que O Fiel Jardineiro teve em 2005. Ao mesmo tempo faz lembrar o Hotel Ruanda, talvez por serem dois filmes passados em Africa, sobre Africa. Este é um filme agressivo, com uma dose de violência brutal, que faz o espectador ficar com um nó na garganta. Fala de um diamante e de como ele pode mudar a vida de vários homens, com uma clara inspiração na Pérola de Ernest Hemingway.
Mas este filme, que como já disse é um filme de consciências, cai no erro de entrar em alguns cliches desnecessários. A lágrima, que é fácil demais em algumas cenas, devia ser guardada para os momentos realmente importantes. A montagem, por vezes confusa e dispersa, é um nitido exemplo de como o filme foi arquitectado para o suspiro constante em vez de uma visão mais realista e fria do tipico final feliz. Acho que o filme seria mais credivel sem os ultimos 10 minutos, ou seja as cenas passadas em Londres. O filme nasce em Africa e deveria morrer em Africa. Seria um final excelente, aquele plano do helicopetro em contra-luz a mostrar Africa em toda a sua plenitude. Seria um final em apoteose, com o desfecho em aberto a ficar na imaginação de cada um. Em contrapartida deixaram-se levar pelo final feliz, a fórmula batidissima de um inesperado heroi, desprezado durante todo o filme, e que acaba a ser aplaudido por uma plateia de ilustres.

Criticas à parte, este Blood Diamond, mais do que um bom filme, é um filme importante. Daqueles que significam alguma coisa, que ensinam alguma coisa. E como filme importante que é, dou-lhe 17 valores limpinhos.

Fica a questão: Deveria estar nomeado ao Oscar de melhor Filme? Digam-me vocês.