quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dos filmes de terror, do poder da ficção e de como às vezes pareço uma menina de 10 anos...



Hoje fui ver um filme de terror ao cinema. Já não o fazia há muito tempo mas pareceu-me um bom programa de meninas em plena silly season. O filme de seu nome Insidious era mau, pior. Era péssimo... E mesmo dentro do ridiculo de figuras com mãos feitas de lâminas (Tim Burton dear, nada bate o teu genial Edward) aquilo meteu-me imenso medo.

Temos medo do que não conhecemos é sabido... E o filme explorava de forma sofrivel o mundo dos que não fizeram a "passagem" e que ficam aqui para nos atormentar em sonhos e não só. A famosa temática dos exorcismos que sempre me arrepiou de morte (lagarto, lagarto, lagarto) e aquele pormenor das presenças, encostos ou o raio que os parta.... O final do filme era aberto e mesmo tendo sido tão mau saí de lá a tremer.

A ficçāo, ai a ficção, quantas vezes não falei do poder dela nas minha vida. Lembro-me bem de um dia escrever algo como "estou a chorar baba e ranho com um romance que nem sequer é bom, há coisas na vida mais fortes do que nós e a ficção é uma delas". É mais forte do que eu, incomoda-me, entranha-se em mim, não tenho como negá-lo por mais pateta que pareça.

No fim do filme já estava eu a ouvir barulhos estranhos, a sentir toques nos ombros, a ver sombras sinistras quando começam elas com a típica conversa que qualquer mulher tem depois de um filme destes: contar as suas próprias histórias do sobrenatural... E mesmo com os meus pedidos de "ahhhh parem não quero ouvir" de nada adiantou porque o entusiasmo alheio era muito e eu com as māos no volante não conseguia tapar os ouvidos... A curiosidade, que é mesmo mórbida lá me levou a ouvir com atenção as histórias e até fazer uma outra pergunta.

Cheguei a casa petrificada. E se me acontecesse o mesmo já esta noite? E depois tentei fazer o exercício que fazia quando era pequenina e via os filmes do Chucky, em que olhava desconfiada para as dezenas de bonecos espalhados pelo quarto e cuidadosamente ia dar um beijo a cada um e deitá-los para dormir na esperança que tivessem pena de mim por eu até os tratar bem. E quando no escuro imaginava que umas perninhas de borracha se encaminhavam na minha direcção tinha o discernimento de me dizer: "Mas porquê que isto te haveria de acontecer hoje? Só porque viste o filme? Isso não faz sentido nenhum." E tentando acreditar na lógica lá adormecia. Como hoje espero adormecer sem pesadelos (porque as histórias reais mesmo com muitos salpicos de imaginação são bem mais assustadoras do que filmes e com estas coisas sou mesmo mariquinhas) e ignorando barulhos de portas a bater a meia da noite...

E no meio de tudo isto acabei por me lembrar de uma frase que Hitchcock dizia com frequência quando alguns dos seus actores tinha dúvidas em relação às suas personagens ou se levava demasiado a sério nas suas interpretações. Dizia "isto é só um filme". E um por um todos à sua volta voltavam ao trabalho na crença que ele tinha razão. Hitchcock porém nunca acreditou nele próprio e por alguma coisa queria que na sua lápide dissesse: Isto é o que acontece aos meninos que se portam mal...

Eu até sou boa menina está bem? E isto foi só um filme...

sábado, 30 de julho de 2011

O aniversário do fim de uma era...


Esta noite acordei de rompante às 6 da manhã. Não é comum que aconteça ao fim de semana. Acontece por vezes quando alguma questão de trabalho me assalta a mente e rapidamente volto a dormir. Hoje é Sábado e só saí da cama às 11 horas mas às 6 da manhã despertei e pensei.... Faz anos hoje, tenho quase a certeza que foi nesta data.... E com a promessa interior de o verificar quando acordasse voltei a dormir. 

Só me recordei agora e confirmei que tinha razão. Sim, hoje faz 4 anos que o telejornal abriu de uma forma triste, duplamente triste. Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman tinham morrido. No mesmo dia o mundo ficou mais pobre de uma forma trágica. Antonioni tinha 94 anos e Bergman tinha 89. Não eram novos, é certo, mas que acontecimento mais macabro este. Duas lendas vivas do cinema europeu. Dois mestres do cinema de autor. Dois realizadores que se admiravam mutuamente. Dois cineastas por quem eu tinha devoção. Morreram dia 30 de Julho de 2007. 

Falta-me ler mais sobre Antonioni mas já devorei várias vezes a auto-biografia de Ingmar Bergman. Um génio. Um louco. Estudei ambos e mergulhei em alguns dos seus filmes de corpo e alma. Filmes esses labirínticos, prodigiosos em cenas longas, com especial enfoque no subconsciente e tão assertivos e ao mesmo tempo indefinidos nos seus diálogos. 

Não acredito de facto em coincidências e caso exista um after life estou convencida que os dois estejam até agora em amena cavaqueira a trocar ideias sobre takes num inglês macarrónico. 


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sobre sombras, contrastes e novamente cinema.


Tem me apetecido escrever sobre cinema. Escrever até me fartar se é que isso é possivel. Tenho fome de bons filmes, de análises críticas, de debates enfáticos. E esta vontade não me vem apenas do rígido mestrado em estudos cinematográficos em Inglaterra. Como já aqui falei desde cedo no meu curso de comunicação o cinema assumiu uma importância fulcral e sempre me servi dele como auxiliar de tantas e tantas teorias da comunicação. Dá-me gozo, é isso. Dá-me muito gozo. Análises semióticas chatas que não interessam ao Menino Jesus mas que a mim fazem vibrar. E daí mais uma vez aqui estou com o cinema, "o meu cinema".

Quando disse ao meu orientador que queria fazer uma tese sobre "O Sonho e o Cinema" ele disse-me que a minha escolha era atrevida. A minha ignorância poder-se-ia pagar cara. Há pouca bibliografia sobre o tema, caminhava sobre terrenos escorregadios e não podia contornar a abordagem à psicanálise. Assim foi e resultado melhor seria impossivel. O meu case-study foi o filme Mulholland Drive de Lynch, filme esse que nomeio como um dos melhores que tive o prazer de assistir (dezenas de vezes). Talvez seja interessante que partilhe algumas observações sobre a complexa obra aqui, uma vez que o número de pessoas que já me pediu uma desconstrução do filme seja considerável. Para já e tal como ontem pegando numa citação constituinte da minha tese aqui fica este texto que acho absolutamente fabuloso.

John Alton, director de fotografia de mais de cem filmes falou muitas vezes do poder da luz e da falta dela. Das sombras e dos contrastes e de como a iluminação é sem dúvida o mais importante na fotografia de um filme. Amante que sou desta vertente do cinema aqui fica este descontraído texto que se lê num arder de um fósforo e que mais uma vez me faz pensar não há nada mais mágico que a ficção, nomeadamente em cinema.


“Para se aperceber do poder da luz e do que ela pode fazer à mente de uma audiência, visualize esta pequena cena: O quarto está escuro. Um forte raio de luz aparece no hall sobre a porta. Ouve-se o som de passos. A sombra de dois pés divide o raio de luz. Segue-se um breve silêncio. Existe suspense no ar. O que é? O que vai acontecer? Ele vai tocar à campainha? Ou apenas inserir a chave e tentar entrar? Aparece outra sombra mais pesada que bloqueia a luz por completo. Ouve-se um indistinto som de assobio e a sombra vai-se embora. Vemos com a luz fraca, um papel a ser empurrado sobre a carpete. Ouvem-se novamente os passos… Desta vez a irem-se embora. Aparece uma vez mais uma luz que ilumina a nota de papel no chão. Lemo-la à medida que os passos se afastam: São dez horas. Por favor apague o seu rádio. O vizinho.”

Painting with Light (1949)


terça-feira, 26 de julho de 2011

Máscaras, Jung, Bergman, Godard e de como eu adoro cinema acima de tudo na vida...


Eu compreendo, tudo bem: o desesperado sonho do ser, não parecer, mas sim ser. Em todos os momentos, alerta à distância entre o que tu és com outros e o que tu és para ti. A vertigem e a constante fome de ser exposta, ser vista através de, talvez até ser apagada. Em cada gesto uma mentira, em cada sorriso uma máscara. Suicídio? Não, muito vulgar. Mas podes-te recusar a mexer, recusar a falar de modo a que não precises de mentir. Podes-te calar em ti própria. Assim não precisas de interpretar papéis ou fazer gestos errados. Ou pensas tu. Mas a realidade é diabólica. O teu esconderijo não é impermeável. A vida engana-te e tu és forçada a reagir. Ninguém te pergunta se é verdadeiro ou falso, se estás a ser autêntica ou apenas uma cópia. Coisas como estas só têm importância nos palcos, e até mesmo lá raramente têm. Eu compreendo porque não falas, porque não te mexes, porque estás apática. Compreendo. E admiro. Deves desempenhar este papel até ao fim até que perca o interesse para ti. Depois podes abandoná-lo, assim como abandonaste todos os outros papéis, um por um.
Margaretha Krook em Persona de Ingmar Bergman (1966)


Jean Luc Godard escreveu na revista Cahiers du Cinema que “se para Bergman estar só é fazer perguntas, para Bergman filmar é encontrar as respostas”. O texto acima transcrito é um excerto de Persona, filme escrito e realizado por Ingmar Bergman e uma chave mestra na sua obra individual. Aparentemente um monólogo, este é um diálogo entre a psiquiatra interpretada por Margaretha Krook e a sua doente, a personagem Elisabeth Vogler interpretada por Liv Ullmann. Enquanto que as palavras faladas pertencem unicamente à primeira, a segunda responde com olhares e silêncios, olhares que falam, silêncios que gritam. O filme trata o período de exclusão de Vogler, uma actriz constantemente a representar. Sendo incapaz de fazer cair as várias máscaras que carrega, deixa que a enfermeira que a acompanha, personagem interpretada por Bibi Andersson, sugue a sua própria personalidade apropriando-se da sua vida. A actriz, que mais nada sabe fazer do que actuar, toma assim a identidade da ingénua enfermeira num debate interior pela sua genuinidade.

The cinema is truth 24 frames-per-second. -Jean-Luc Godard


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Quero um Ocelot!


Haverá algo mais perfeito do que este animal? Um gato con traços de tigre. Um wildcat. Mas não serão todos os gatos wild?

Quem me conhece sabe a afinidade que tenho com os gatos. Tive 3 na minha vida, cada um com uma história muito própria e que contarei aqui brevemente. Vi o Cats a primeira vez com 15 anos e fiquei absolutamente fascinada com o texto, com a forma como se esgueiravam, apresentavam. Depois disso exigi à minha mãe um gato. Identificava-me com eles, com a sua personalidade. Entendemo-nos bem eu e os felinos. Damos o espaço que precisamos um ao outro e depois temos momentos de endless ternura e ronronar. Somos astutos, calculistas, misteriosos. Somos espiritos livres que gostam de mimo e bem estar. No entanto nunca se sabe o que pode contar de nós ao mesmo tempo que sabe que se pode contar tudo até o inimaginável.

Já disse que gostava de felinos? Gostava de ter um Ocelot, o meu tigre de estimação, qual Jasmine do Alladin. Se calhar já o tenho, só preciso de pegar nele e dizer: Baby, this is home!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Em Guimarães...



eu nunca acordo com barulho na rua ou ouço carros a passar.

eu não preciso de usar relógio porque os sinos de várias igrejas marcam o compasso da vida.

eu posso assistir a sessões de cinema ao ar livre no centro histórico mais bonito que conheço.

eu sou sempre bem atendida e as pessoas oferecem-se sempre um sorriso quando passo.

eu posso comprar carteiras Chloé e Celine e sapatos YSL e Balenciaga em lojas de comércio de rua.

eu bebo um chá de ervas e como o melhor Jesuíta do mundo por 2€.

eu vibro com o futebol que une uma cidade, grito meio palavrão por minuto e no fim ainda me emociono no estádio.

eu posso visitar o meu Palácio, o meu Castelo, as minhas Muralhas e ler com orgulho a placa que diz "Aqui nasceu Portugal".

eu posso viver numa casa onde animais correm ao ar livre, morangos nascem às centenas e uma floresta de girassóis avista-se da varanda do quarto.

eu posso dar passeios intermináveis na Pousada de Santa Marinha, outrora mosteiro, onde os jardins mais misteriosos do mundo se levantam e onde os meus irmãos se casaram.

eu tenho as vistas mais bonitas do pôr do sol sobre a cidade a partir da minha sala e no entanto consigo estar no centro em 5 minutos.

eu dou longos passeios pelo parque da cidade, pelas ruas estreitas com centenas de anos, pela história de Portugal.

eu posso passar o fim de semana todo de havaianas e bikini, vestir um leve vestido para ir comprar o pão mais estaladiço sem que ninguém olhe para mim de lado mesmo não havendo mar por perto.

eu estou perto pertinho de Espanha, perto pertinho do Porto e mais perto pertinho ainda das pessoas que moram no meu coração.

eu converti-me ao espirito de ser vimaranense, de adorar o D. Afonso.

(Porque nem sempre foi assim e Guimarães conquistou-me. Porque nasci em Guimarães há 27 anos e só agora entendo que nasci no sitio certo. E havendo tanto mas tanto mais para dizer sobre as qualidades da minha cidade apenas me ocorre que:)

"Em Guimarães.... eu sou feliz."

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Para o PP...


Tive vários blogues antes deste. Secretos, sem assinar o meu nome ou mostrar a minha cara. Blogues de duração tão curta quanto o tamanho da minha auto censura. Em 2006 tive uma cadeira chamada Produção de Conteúdos para os Media. Era uma cadeira de 4º ano da especialização em Jornalismo e muitos colegas não entendiam porque é que a cadeira que valia mais unidades de todo o curso era dedicada ao cinema. Sem deixar de os compreender, eu adorava... Era a minha praia... Estudos cinematográficos, argumentismo, fotografia e montagem, análises semióticas. Era uma cadeira anual com 6 horas de aulas semanais e o professor que muito prezo tinha fama de ser duro. Aliás... Era duro. Facilmente caí nas suas graças. Era dedicada àquela cadeira, interessava-me o tema, ali sentia que podia ser maior. Tanto, que já tinha encaminhado a minha candidatura ao mestrado em cinema em duas universidades inglesas.

A minha turma não me achava tanta graça assim. Aluna que nunca foi às aulas, de repente caía ali de pára-quedas pronta para saborear de um trago só matérias que eles não queriam, nem tinham de ter a mesma sensibilidade que eu demonstrava. Aos poucos julgo que perceberam que eu era mesmo assim, que aquela paixão pelo cinema, estética e semiótica era genuína, que não era uma lambe botas, pelo contrário, era das poucas que ousava corrigir o professor. Depois da implicância inicial começaram a pedir-me ajuda para os trabalhos da mesmo forma como eu lhes pedia os apontamentos de outras cadeiras que não tinha gosto em frequentar. E com extremo prazer o fazia. Sugeria-lhes temas, filmes, bibliografias, frases de abertura para os trabalhos, trechos a mostrar na apresentação.

Um dia em jeito de brincadeira uma colega, que era óptima aluna, disse-me que eu deveria criar um blog para poder lá escrever as mesmas coisas que lhes dizia. A sugestão que era elogiosa deixou-me a pensar e apesar de nunca ter transformado este blog naquilo que ele merecia, podem ler para trás muitos e muitos textos sobre cinema. Textos dos quais me orgulho. E assim fica a história pura e dura do meu inicio a sério num blog...

Mas em 2006 eu desconhecia por completo que existiam seguidores... Eu não lia outros blogues logo não esperava que lessem o meu. Apenas o conheciam os meus amigos, principalmente por curiosidade de ler a critica que escrevia ao filme que tinhamos visto no dia anterior.

No decorrer dos anos desta residência surgiu-me um leitor que sempre assinou como PP. Não sei quem é mas julgo que me conhece ou conheceu. A forma intima como me escreve sugere isso e quando lancei o repto para o conhecer respondeu-me assim: "Só hoje vi a tua msg. E talvez até me conheças, mas isso não interessa. Porque sei que poder estar na tua mente nem que seja um minuto por ano, é ter também uma residência nas nuvens, só não é fixa. P.S. A lua hoje está linda." ou assim "Eu sei que deixando comentários aqui e ali estou sujeito a que todos vejam o que escrevo. Mas de outra maneira não teria onde me inspirar. Continuas linda e com bom gosto,  fico feliz se souber que tudo te corre bem por ai na ilha. Mas lembra-te que o Porto terá sempre saudades de princesas como tu." deixando-me ainda mais curiosa.
A última vez que me escreveu foi em 2009 e não faço ideia se ainda este visita este espaço. Se sim, o que duvido, aqui fica:

Caro PP, no dia 10 de Fevereiro de 2008 escreveste-me assim: "não sei porquê, mas porque sim. eu minto e desminto num olhar, mesmo que não olhes pra mim, eu minto e volto a mentir. porquê? -não digo, ou porque sei que por mais longe que eu esteja do teu olhar, eu estarei a ver, e volto a mentir. tu és especial não tens de perguntar porquê, mas a resposta, é porque sim. porque vives e guardas o melhor pra ti e não queres deixar o mundo sem saber o sabor do que guardaste aqui."
E 40 meses depois queria te dizer que nos últimos dias me lembrei muito destas palavras e que sim... Não vou deixar o mundo ser saber o sabor do que fui guardando aqui e ali. Obrigada por estas palavras tão especiais que não serão esquecidas. Obrigada essecialmente por me teres alertado para a grandeza das pequenas coisas e vai aparecendo que esta residência sente falta de um anónimo como tu.

A minha marca (até que o mar a levasse) na praia da minha vida. 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Sussurros do sexo + forte: Amores em linha

Moram em países diferentes, nem falam a mesma língua. Numa rede social online descobrem que são amigos de amigos e a beleza dela faz-vos dar o primeiro passo. Afinal é tão mais fácil quando se está a uma distância de um clique. Não precisam de ter o cabelo penteado nem a camisa engomada. Trocam-se uns emails num inglês enferrujado, o essencial é sempre entendido. Afinal a língua da sedução é universal. Enviam-se uns vídeos com umas músicas cuja letra é suposto falar por si. Quando dão conta já enviam mensagens de boa noite e a conta de telefone aumenta a olhos vistos. Já a viram na webcam, trocaram fotografias dos cães e já conhecem a sua rotina. Passam por dia um número de horas consideráveis em frente ao monitor do computador e pela primeira vez não é num qualquer jogo online. É oficial: têm uma relação no ciberespaço. É então que chegam àquela fase decisiva. As fantasias para se encontrarem num país neutro e passarem um romântico fim-de-semana à beira-mar aumentam. Fazem planos de passarem a próxima passagem de ano juntos, trocarem prendas no natal e fazerem aquela viagem ao destino paradisíaco que os dois sempre sonharam. De repente já marcaram as férias para a mesma altura que ela, e tudo parece tão perto, no entanto tão longe. Vão dar esse passo? Conhecer alguém cuja história que partilham é meramente digital?
Para esta pergunta podem haver várias soluções. Se o entendimento for assim tão bom, porquê estragar com um encontro embaraçoso em que os vossos assuntos de conversa parecem de repente se terem reduzido ao tempo. E se ela não gostar da forma como vocês caminham, se o som da vossa gargalhada a incomodar ou até nem têm gostos gastronómicos semelhantes. De repente vêm nela uma olhar de reprovação, sentem-na desconfortável e com a constante pergunta na cabeça “O que é que eu faço aqui num país estranho com um homem estranho”. E se o mesmo vos acontecer a vocês. Qual será pior? A desilusão ou a rejeição ou a simples sensação incómoda que têm quando acordam de um sonho bom e descobrem que afinal nunca aconteceu….
Ou… Porque não podemos ser pessimistas, podem descobrir que ao vivo a vossa química sobe em flecha. Que estão oficialmente apaixonados apesar de só ser a primeira vez que se estão a ver, que afinal sentiram tantas saudades daquela pessoa à vossa frente que é tudo menos uma estranha.
Conheço pessoas a quem lhes aconteceu a primeira alternativa, outras a quem aconteceu a segunda. Alguns casaram, outros continuam juntos há anos, outros tiveram simplesmente uma noite louca para relembrar. Poucos são aqueles que tiveram de facto uma má experiência. Afinal o desconhecido é sempre atractivo.
Por muitas diferenças que possam encontrar neste exemplo, quase todos já tiveram uma experiência parecida. Mais ou menos distância, mais ou menos orçamento, mais ou menos paixão na vossa relação cibernética. A internet é cada vez mais um sítio apetecível para conhecer pessoas novas e se pensarem bem é tentador que a informação esteja ali tão perto e a selecção, que não é assim tão natural, posso ser feita de raiz. Um conselho. Arrisquem. Vivemos numa aldeia global, conheçam as vossas vizinhas sexy.

(Os "sussuros" que vão lendo aqui foram publicados entre 2008 e 2009 na revista masculina Bling HIM. Era uma crónica que escrevia com o intuito de "ajudar" os homens a entender melhor as mulheres. Apesar de baseada na minha experiência e conhecimentos esta crónica era assinada com um pseudónimo e escrita por uma "personagem" que criei.)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

The importance of being alone...


No Sábado estava um dia de sol no Estoril. Falei com familia e amigos que me informaram que em casa estava mau para o bronze. Era só isto que precisava de ouvir para decidida me encaminhar para a praia. Levantei-me tarde e ainda assim só dormi umas miseras 4 horas. Desci à sala da casa onde estava e encontravam-se já os meus convivas em modo pequeno almoço inglês. Insistiram que ficasse por ali mas é sabido que não consigo ficar muito tempo no mesmo sitio... E então entrei no modo que mais gosto: solidão, a minha solidão, num sitio que não meu.
Adoro o Estoril, recordo as dezenas de vezes que lá fui mas a verdade é que ficava sempre no mesmo hotel, mais tarde na mesma casa e em outras ocasiões deslocava-me de carro. Ora eu sabia que a praia estava por perto mas não tão perto. Caminhei perdida pelas ruas, sem vontade nenhuma de pedir indicações. Haverá uma sensação de liberdade maior do que esta?
Depois de alguns tropeções e caminhos menos próprios cheguei à marginal. Virei sem pressa para a minha direita desconhecendo de todo onde estava. Always turn right. A unica coisa que lamentei foi não ter comigo a minha música, mas dado o estado da minha cabeça de 4 horas mal dormidas talvez fosse melhor assim. E nesse passo lento e aventureiro cheguei a esta praia que não lembro o nome. Escondida por casas e pedras, esta pequena baía pareceu-me o paraíso. Estendi a minha toalha e sem olhar duas vezes fui arriscar os meus dentinhos nas rochas, caminhando sem chinelos, mergulhando e voltando a subir entre escorregões. Sabia que nunca na vida me deixariam fazer aquilo (pais/ amigos/ namorado/ irmãos). Senti-me como a miuda que rouba a bolacha e a come atrás do sofá com os pais lá sentados a ver tv. Senti-me livre, senti-me feliz.
E já mencionei no outro blog que este fim de semana foi muito bom, que as pessoas que me acompanharam foram fantásticas e que me diverti imenso. Mas a Raquel só é verdadeiramente ali. Consigo própria a trepar rochedos escorregadios. Sem ninguém a observar a não ser a sua própria consciência. E sem cinismos o digo porque quem me conhece e quem me gosta o sabe: não há melhor companhia para mim do que eu própria.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Sussuros do sexo + forte: As Bandidas.


A minha cidade está cheia de bandidos. Uma epidemia, como nunca aconteceu e que ninguém parece conseguir controlar. Mas estes bandidos não roubam carros, quadros ou jóias. Eles andam aí, cruelmente a roubar corações. Vêm com falinhas mansas, dizem o que uma mulher quer ouvir, fazem-na sentir especial e única e depois como se nada fosse, desaparecem. Ora que esta nova classe de ladrões, não me assusta nem um bocadinho. É que apesar de provocarem o terror entre o seio da comunidade das meninas ditas princesas que inocentes ainda acreditam em príncipes, eles desconhecem a existência de mulheres como eu: as bandidas. E eu, apesar de ser fã número um da bandidagem, vou-vos ajudar a reconhecer quando uma mulher vos está a tentar roubar o coração.
Uma bandida tende a ganhar o alvo a atingir pela confusão que lhe provoca, tanto que após lhe anestesiar os sentidos, ele se recusa a acreditar que nada mais do que uma princesa tem ao seu lado. Ela é segura de si e senhora do seu nariz, mas nos momentos certos mostra-se fragilizada para que vocês acreditem que a podem consolar e apoiar, que são importantes na sua vida. Tanto vos faz sentir inferiores a ela de forma quase constante, como solta um elogio que vos parece sincero e vos deixa encantados por tempo indeterminado. A disposição dela funciona como o vento, e vocês, ignorando se naquele dia está para norte ou para sul, tratam-na sempre com muita cautela, como de uma casquinha de ovo se tratasse. Por fim, e porque as bandidas sabem aproveitar o melhor de si, elas dão o seu corpo a conta-gotas, combinando esta espera com momentos intensos de total entrega, seguidos de novo recuo, o que vos deixa loucos de desejo. As bandidas mitificam-se, e vocês comuns mortais, nada mais têm a fazer do que adorá-las.
Chegando a esta fase, cada homem já se questiona o que fez de certo ou errado para justificar cada acto dela. Sente-se tonto e ansioso. Já se afastou dos amigos e tem embaraço em contar aos mais próximos o que lhe vai na alma. É oficial, foram seduzidos. Ou melhor, lamento dizer-vos: foram manipulados, enganados, logrados, iludidos.
Querem saber agora a parte boa da história? Todo este esforço por parte da mulher só se aplica quando ela realmente não está interessada num homem, quando não imagina um futuro com ele, quando só precisa de alguém que aumente um bocadinho o seu ego ou venha apimentar a sua vida sexual. E assim sendo, para bandida, bandido e meio e aconselho-vos a aproveitarem ao máximo este jogo que se pode tornar muito excitante para ambos. Se se apaixonarem, então desistam, fujam a sete pés, porque não há nada que humilhe mais um homem perante uma mulher do que a sua fraqueza.
Por fim a pergunta lógica: Então e quando as mulheres gostam de um homem? Infelizmente meus caros, tenho de vos confessar a verdade: até as criaturas que vos falei em cima se apaixonam e aí… São tão tontas e ansiosas como vocês conseguem ser. Palavra de Bandida!


(Crónica escrita para a terceira edição da revista Bling HIM)