segunda-feira, 31 de agosto de 2020

1 de Setembro

Durante alguns anos fiz companhia à minha mãe numa semana ou duas de termas em Mondariz. Como eu tinha vários problemas respiratórios, ia fazer os tratamentos, bebia as águas sulfurosas, que remédio, e tinha o mimo todo só para mim. Em Mondariz tinha existido um Gran Hotel que recebia a nobreza Europeia a águas e que tinha sido vítima de um incêndio em 1973. A primeira água do dia era no local do Gran Hotel, agora recuperado, mas nessa altura ainda estava lá a autópsia do desastre: paredes queimadas, um pântano no local onde era a piscina e uma floresta em vez de jardim. Como tínhamos de esperar 15 minutos entre cada copo (eram três), eu e a minha mãe passeávamos por ali. Eu tinha recebido um livro de imagens antigas do hotel e nesses passeios, entre o medo e o entusiasmo do desconhecido, eu tentava imaginar o que tinha sido vivido ali. Eu ainda não sabia, mas aqueles passeios e aquelas semanas em Mondariz seriam os meus primeiros retiros e as minhas primeiras meditações. Decidi assim, no ano de 1997, que dia 1 de Setembro seria o ano em que eu faria o balanço anual da minha ainda curta vida. Os anos passaram e dia 1 de Setembro manteve-se com essa conotação de reflexão e recomeço. Julgo que para muitos funcionará assim também. Que seja um bom Setembro para todos. Que seja um bom início. Estejam atentos ao que vos envolve, nada é tão importante como o que vive em nós.



quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Domínio Vale Flor - Ribatejo

O DONO DO SÍTIO ONDE FICAMOS ESTE DIAS CHAMA-SE DANIEL. UM SUL-AFRICANO COM CARREIRA DE DIPLOMATA EM LONDRES QUE UM DIA VIU UM LAND ROVER NUMA MEDITAÇÃO. PERCEBEU QUE NÃO ERA DO CARRO QUE PRECISAVA E SIM DO QUE PODERIA FAZER COM ELE. VÁRIOS SINAIS LHE GRITAVAM PORTUGAL E CONVENCEU A MULHER HOLANDESA E OS TRÊS FILHOS PEQUENOS. FICOU ALGUM TEMPO EM CASCAIS MAS RAPIDAMENTE ENCONTROU ESTE BOCADO DE TERRA NO RIBATEJO QUE DIZ QUE É "A SUA ÂNCORA". APRENDEU CARPINTARIA, APROVEITOU O QUE JÁ EXISTIA E EXPANDIU. A MULHER COZINHA TODAS AS REFEIÇÕES CUIDADAS E DETALHISTAS, TRATA DO TURISMO E FAZ CURADORIA DE ARTESANATO PROVENIENTE DE TODO MUNDO. OS FILHOS, EDUCADÍSSIMOS, AJUDAM EM TUDO. 

O DANIEL CONTOU-NOS A HISTÓRIA DE UM FRANGO MUITO PEQUENO QUE ANDA NO JARDIM. CHAMA-LHE SOZINHO PORQUE NÃO GOSTA DE ESTAR COM OUTROS. NÃO SABE SE É GALO OU GALINHA PORQUE NUNCA CRESCEU, DESCONFIA QUE SEJA ANÃO. MAS ELE É FELIZ, DISSE-ME, SORRINDO. O SOZINHO É FELIZ. TEM TUDO DE QUE PRECISA. 

ÀS VEZES APRENDEMOS MUITO SEM CONTAR. OS MEUS AVÓS ERAM AGRICULTORES E CRIADORES DE GADO E ESTA RURALIDADE AQUI É GLAMORIZADA, MESMO COM OS RATOS, AS ARANHAS E A AUSÊNCIA DE LUXOS COMO WIFI. APRENDEMOS COM AS PESSOAS. QUE COM A SUA SIMPATIA, HUMILDADE E SORRISO SEMPRE PRESENTE NOS ENSINAM A VIVER LEVEMENTE E DEVAGAR. QUE PODEMOS MUDAR, BASTA QUERER. "NO STRESS" OUVI MUITAS VEZES NOS ÚLTIMOS 5 DIAS. NO STRESS, THEN.



sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Marriage Story


  • Marriage story não é o filme que eu esperava que fosse. Na minha cabeça imaginei algo entre Kramer vs. Kramer e Closer e acabou por ser algo mais leve, mais Woody Allenish, mais trilogia dos Befores de Linklater, à mesma triste. É sempre triste quando uma família se separa e apesar de ser fácil tomar uma posição eu dei por mim apenas como observadora, sem sentir identificação com nenhuma das personagens, como uma peça de teatro vista com alguma distância. E assim não me destruí emocionalmente como outros filmes já fizeram este ano e eu esperava quw este fizesse também. Isso não é mau necessariamente, é apwnas diferente. Scarlett Johansson tem um grande desempenho, ainda que não o melhor de sempre, e Adam Driver sim destaca-se no papel da sua carreira. Laura Dern é uma das minhas actrizes favoritas e gosto sempre muito de a ver, apesar de o papel me parecer muito idêntico ao de Renata em BLL.  Quem é fã dos indies que ano após ano deixam a sua marca de diferença no meio de histórias mais convencionais irá gostar muito deste filme. Quem espera um dramalhão familiar talvez saia um pouco desapontado. Eu gostei muito. 8/10

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

The Farewell


Depois de Shoplifters, é impossível não fazer a comparação a estes filmes orientais recentes que têm a família como tema nuclear. E apesar de não deslumbrar como o primeiro, é um filme enternecedor e leve sobre um tema tão pesado como a morte. Acho que temos muito a aprender com os orientais e estes filmes são um ponto de ligação importante sobre um mundo que pouco ou nada entendemos. E depois digam-me? Quem não quer uma avó Nai Nai na vida? 7,5

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Errar para viver

Os erros fazem parte da vida. Tal como outra coisa qualquer. Há erros que vivem connosco durante muito tempo, que nos fazem compainha ao deitar e ao acordar. Às vezes despertam-nos mesmo a meio da noite. Há erros que são o nosso amigo imaginário durante anos e anos e apesar de invisíveis não são minimamente silenciosos. O meu pior erro foi deixar que algum erro definisse a minha vida. Hoje olho para os erros como lições. Às vezes demora algum tempo até que consiga ver o lado bom do meu erro, porque todo o erro não duvidem, tem um lado bom. Isto não me irresponsabiliza do meu erro. Eu sou e devo ser totalmente responsável pela minha vida. Mas os meus erros não definem quem eu sou, pelo contrário, os meus erros ajudam-me a crescer, fazem-me mais forte, mais sábia e mais tranquila. Se vou continuar a cometer erros? Claro, é um erro enorme pensar o contrário. Tal como comecei por dizer fazem parte da vida como outra coisa qualquer. Não deixem que os vossos erros vos destruam. Mas também não os silenciem. Ouçam-nos com toda atenção, e quando for possível, arquivem-nos com carinho, como um postal que alguém vos escreveu e que de vez em quando gostam de reler, não para relembrar a dor da ausência, mas para relembrar o amor. Errar é vida e vida é amor. Ouçam-no e perguntem-lhe como vos serviu naquele nomento, porque todos os erros nos servem de alguma forma, por isso os cometemos. Sejam responsáveis, reconheçam quem são, abracem-se, mas não deixam que um único momento das vossas vidas os defina. Não se arrependam do que fizeram, ou arrependam mas responsabilizem-se e aprendam com isso. É a única forma possível de viver, caso contrário é sobreviver.

sábado, 12 de outubro de 2019

Parasite


Parasite ganhou Cannes e está a receber aclamação mundial como um dos melhores filmes de sempre. Teve a estreia mais bem sucedida da história americana por um filme de língua estrangeira este fim de semana. É de facto um filme original e muito bem conseguido na crítica social que faz mas não é o tipo de filme que me chegue ao coração. Lembrou-me de Get Out, outro bom filme com o qual não me consigo entusiasmar. Recordo-me de repente de Shoplifters que de alguma forma tem um tema similar e que me emocionou enormemente. Mas caramba, o feliz que fico de ver americanos e não só a falar assim de um filme sul coreano. Depois da reacção ao Joker este é o sinal que ainda devemos manter a esperança no estado da arte e do politicamente incorrecto. 7,5

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Dolor Y Gloria



Vi Dolor y Gloria, o último filme de Almodovar, baseado em factos auto-biográficos como vários na sua carreira, com a diferença que este trata da vida de um cineasta espanhol, carreira internacional, crise de meia idade e um coração cheio de dor. Tal como me aconteceu noutros filmes seus, passado 10 minutos já não o queria ver, incomoda, no entanto sabia que tinha de o fazer. E ainda bem. Porque no título a dor está acompanhado da glória. Filmes como este são aqueles que eu considero como cine-terapia, e Almodovar, fale de que tema fale consegue me sempre ir ao mais profundo que tenho.
A nível cinematográfico não me encheu as medidas como Habla com Ella, Mala Educacion ou Julieta, mas para mim revisitar o seu imaginário será sempre como andar de bicicleta. De imediato voltam e se instalam as cores, os diálogos, o humor requintado, a solidão, a dor e a glória, a tão importante glória. Se eu tivesse que definir o género melodrama em duas palavras seria assim: Pedro Almodovar.

(Antonio Banderas ❤)

8

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Joker


Desagrada-me quando um filme tem muito hype porque invariavelmente acabo por sair desapontada. Não foi o caso aqui. Batman é o meu super herói favorito porque ele não tem super poderes, é igual a cada um de nós, mas usa das suas valências para combater o crime. Este não é um filme de super heróis, mas foi o retrato de Gotham City que mais gostei de ver até hoje, talvez por ser tão assustadoramente fiel a Planeta Terra 2019. Talvez seja isso que leva algumas pessoas a alarmarem-se com esta narrativa. É uma metáfora/ crítica social muito bem escrita. Mas enquanto alguns vêem um filme sobre loucura e violência, eu vejo um filme sobre a empatia, ou sobre a falta dela e de como devemos nos pôr mais nos sapatos dos outros, nem que esses sejam sapatos de palhaço. É um filme perturbador, com momentos que me deixaram extremamente desconfortável, de uma forma que apenas pode acontecer num bom filme, mas ao mesmo tempo um filme muito bonito. Tristemente bonito. Vejam por vocês, vale a pena o murro no estômago. 
Finalmente Joaquin Phoenix. Tenho algumas dúvidas que o filme consiga arrancar muitos galardões em Hollywood, mas Phoenix tem aqui o papel da carreira dele e sem ter visto os outros desempenhos aposto já o meu dinheiro nele. Foi das melhores construções de personagem que vi numa longa metragem (créditos para Todd Phillips) e a entrega de Phoenix ao Joker dele é arrepiante. Convenceu-me em cada gota suor do seu rosto, em cada esgar da sua gargalhada descontrolada ou no olhar perdido de quem não se pretende encontrar. Heath Ledger, onde estiver, estará orgulhoso. 9

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Once Upon a Time in Hollywood

Este foi um dos filmes que me causou mais entusiasmo nos últimos tempos, todas as premissas são demasiado boas. Eu adoro metatextos, e sendo o cinema o meu favorito, estava mortinha para ver o filme do Tarantino sobre filmes (e não só). Ele tem um estatuto de Golden Boy, que sempre o acompanhou e que o permite fazer coisas que, hoje principalmente, poucos se atrevem. Ainda bem. Não entra directamente para o top Tarantino mas é um filme francamente bom. Principalmente para quem adora cinema para lá do ecrã. (E o Leo vem nova nomeação?) Vejam por vocês e no fim trocamos ideias.


segunda-feira, 27 de maio de 2019

Julieta de Almodovar


Vi o Julieta num voo nocturno que me trazia sozinha do Rio de Janeiro de volta ao Porto. Aterrei, descansei o que necessitava e apanhei a próxima sessão do filme no cinema. Eu precisava de ver aquele filme em "telona". O filme impressionou-me logo pela estética dos anos 70, cores muito fortes a lembrar os tons technicolor, o vermelho permanentemente presente em cada take. Os cabelos da protagonista num tom e corte a lembrar-nos as rockeiras da altura, as roupas num vinil muito próprio da época, a delicadeza no olhar que contrasta com tudo isto.
Com Julieta, Almodóvar volta aos dramas femininos, que tão bem explorou em "Tudo sobre a minha mãe" ou "Volver". E Almodóvar conhece a mulher como ninguém. Curiosamente este filme tinha o título de Silêncio, mas foi mudado dada a coincidência com a obra de Scorcese. Porque em Julieta há sem dúvida silêncios que falam, discursam, por vezes gritam. É um filme feminino e abraça como é costume neste realizador, o tema da maternidade, do crescimento da mulher, da condição única de ser mulher: mulher em Almodôvar. E é impossível que qualquer pessoa que veja este filme, homem ou mulher, não se sinta emocionado pela honestidade dos sentimentos. A vida não é um conto de fadas, e se dúvidas existissem, Pedro Almodóvar tira-nos, uma por uma, como um soco invisível no estômago. E apesar de ser um filme visceral, difícil, que exige do espectador, é também uma história acima de tudo muito bonita. Visualmente e a nível dos afectos.
Apesar da pré-nomeação para os Óscares, o vigésimo filme do consagrado cineasta espanhol, não chegou à curta lista de 2016. Esteve porém nas mais diversas listas de críticos cinematográficos como os "Dez filmes que tem mesmo de ver este ano". Porque nos dá, dá-nos imenso, e quando um filme tem a capacidade de nos dar tanto, nós temos a obrigação de o trazer connosco para casa, um pouco daquele vermelho, colado na retina, guardado no coração. Ainda bem que me cruzei com este Almodóvar enquanto cruzava o Atlântico. Tornou a minha viagem infindavelmente mais rica.

(Este texto foi publicado pela primeira vez dia 15 de Março 2017 no portal www.ricardojorgepinto.com)