Confesso que depois do Globo de Ouro esperava um indie mais espectacular. Mas passadas as expectativas iniciais é na simplicidade de dizer coisas tão íntimas para cada um de nós que o filme se mostra. Ainda que se tenha tido um background diferente de Lady Bird é impossível não sentir empatia ou mesmo nostalgia com esta adolescente. O descobrir da sexualidade, o querer ser diferente porque sim, o querer voar para longe, longe de Sacramento onde a California é menos California. O embaraço que os pais causam, as dificuldades sociais e de relacionamento que o dinheiro escasso numa família de classe média causam. E por fim o mais importante do filme: a relação entre mãe e filha. A dicotomia entre o amar tanto que se sufoca, que se berra, que se afasta, que se magoa. E é por isso que este é um indie tão simples e tão bonito. Certamente lembra Juno, certamente lembra Little Miss Sunshine, mas sem ser um filme tão "grande" como esses, facilmente arrancará um Oscar de melhor argumento original. Créditos a Greta Gerwig que o escreveu e realizou, e sem dúvida a Soirse Ronan e Laurie Metcalf que fazem cada mãe e cada filha se identificar tanto com esta narrativa que é afinal, a vida a acontecer. Destaque para o final, poético, apoteótico, quando Lady Bird vira Christine. God's given name. 7 estrelas.
sábado, 27 de janeiro de 2018
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
The Shape of Water
Eu nunca gostei de nenhum filme ou argumento de Guillermo del Toro mas sempre simpatizei com ele e a sua presença tão distinta de tudo em Hollywood. Fantasia e ficção científica não são de todo a minha praia com brevíssimas excepções. Acreditei no início do filme que iria gostar, quando comecei a escutar o narrador em voz suave a apresentar-nos a uma princesa que se masturba na água enquanto os ovos matinais fervem. A água, princípio e fim de tudo neste filme. Achei nos primeiros dez minutos que estava a ver um misto de Amelie Poulain com Benjamin Button com um quê de Lars Von Trier. Infelizmente o argumento não me conseguiu prender ao ecrã como nos primeiros minutos e apesar de perceber a beleza das metáforas (ou da metáfora maior) e também de algumas cenas, como diálogos, não foi um filme que me deslumbrasse. Por todos estes contrastes e por achar que talvez não esteja a dar ao filme o benefício da dúvida (ou a pressão de 13 nomeações aos Oscars), um 7 envergonhada ou então um 6 pouco convencido porque o IMDB não permite meios pontos.
The Greatest Showman
Foi com alguma surpresa que vi hoje as nomeações aos Oscars (aliás várias surpresas mas a isso iremos no post pré-oscars). O The Greatest Showman só teve una nomeação, a de melhor música, e sendo um musical comme il fault eu esperava mais. Não que eu tenha ficado absolutamente rendida a este filme, talvez porque esperava alguma surpresa dele e isso não aconteceu. As músicas são compostas pelo mesmos autores de Lalaland mas é um musical clássico, romântico, com moral da história e um final feliz. É o filme perfeito de Natal sem dúvida, com músicas que ficam no ouvido, e bons desempenhos, pena que o tenha visto em Janeiro. Destaca-se Michelle Williams, com muito mais salero que que o habitual e a mensagem bonita que neste mundo podemos ser quem quisermos e que a beleza não está nos olhos de quem vê e sim em todas as pequenas coisas que são feitas com empenho e amor e nos poucos, mas bons que nos rodeiam. Um 7 em 10.
quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
I, Tonya
Eu acredito fielmente que este filme tenha um efeito diferente em mim ou vocês, do que tem num americano que viveu o sensacionalismo da história de Tonya Harding em 1994, intensamente. A verdade, é que ainda sendo uma tentativa de mostrar a verdade dos acontecimentos, este filme não desculpa Tonya, pelo contrário, mostra a verdade dela que nem sempre é clara e muitas vezes ambígua. Queixam-se também do exagero de violência doméstica, da banalização da mesma, penso, sem se lembrarem que esta é uma tragico-comédia. Não é um filme para ser amado, pelo contrário.
Em jeito de doco-filme ficcionado, o realizador faz questão de manter as coisas um pouco confusas. Tonya é uma anti-heroína e apesar de ser a vítima do filme, vítima por 20 anos e milhões de americanos, não conseguimos sentir simpatia por ela. E a isso muito se deve o excelente desempenho de Margot Robbie. É proprositado, aviso já. Mas como falar de desempenhos sem falar de Allison Janney que já levou o Globo e levará o Oscar. Pensar então que esta é a mesma actriz que faz de mãe de Juno, faz-nos realmente apreciar o seu desempenho. Este não é um filme sobre bons nem maus. Sobre vítimas nem heróis. Nem sequer é um filme sobre ice skating. Shit happens como a Tonya nos diz. E nós temos que viver com isso. Um Goodfellas da patinagem artística. Leva 7 estrelas minhas.
Call me by your name
Há tanta coisa que poderia dizer sobre isto, mas tanta que não quero dizer. Acho que há certos filmes que não se explicam, no entanto é imensamente importante que sejam feitos. Este é um filme emocionante, romântico e desafiador. Bastante desafiador. Mas ao mesmo tempo não é nada pesado, é simplesmente encantador. Leva-nos ao primeiro amor, ao descobrir da sexualidade, a sensualidade presente em cada frame, tudo isto sem género. "I'm bi. - I thought you were Italian!"
Os diálogos são soberbos, o filme imita a arte ou a arte imita o filme, fico baralhada. Há também muito meta-texto, uma música linda que nos envolve, uma fotografia que nos leva àquela villa italiana em 83 e aquele monólogo final do pai que diz tudo, mas tudo, o precisamos de saber sobre a vida e sobre o amor. Que filme bonito. 8 estrelas.
PS- Dentro de filmes do género, este lembrou-me muito alguns dos meus favoritos que recomendo também, aqui estão:
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Coco
Fui sem expectativas para este filme e saí de coração cheio. Não sabia nada sobre o argumento e fui me encantando a cada frame, que sejamos logo claros de raiz, é lindo de morrer. Sendo fã assumida da cultura mexicana e curiosa acerca dos rituais sobre a morte de diferentes culturas, adorei como este filme nos dá tanto sobre estas duas temáticas. É sempre refrescante ver um filme "infantil" tratar de forma tão desempoeirada um tema como a morte. E ao mesmo tempo, a bonita a conclusão de que apenas morremos quando deixamos de ser lembrados. Gosto de acreditar que um dia vou beber umas tequilas numa cidade dos mortos tão bonita como a que Coco mostra. Emocionante e adequado a toda família. Oscar de melhor filme animado e música original garantidos. Algumas lágrimas também. 8 estrelas.
Three Billboards
Tenho tentado pôr em prática o que me ensinaram há anos como uma boa regra para a vida: a film a day, a book a week. Sendo altura de prémios torna-se ainda mais fácil. Os Globos abriram caminho para os possíveis nomeados aos Oscars e eu fui-me antecipando, para que este ano não falte nada.
Comecei pelo melhor, se não estou em erro. Não devo estar, este foi um dos melhores filmes que vi na vida. Sou uma eterna apaixonada por histórias simples contadas de uma forma fantástica, se bem que esta história é tudo menos plana. Com laivos de Fargo e Grand Budapest Hotel, a mulher de Joel Coen lidera um elenco de luxo que nos dá um show de representação. Tudo em Three Bilboards é non-sense, tudo um pouco anedótico, mas tudo faz sentido, como se de um poema se tratasse, onde as últimas palavras não têm de rimar. O final é perfeito, os diálogos são geniais, a música country quase serve de personagem. Uma das mais valias do filme reside exactmente nas personagens, até as mais secundárias, tão redondas, todas elas.
Ri, ri muito. E chorei ainda mais, como só os bons filmes conseguem. Uma lição magnânima sobre o perdão, sobre a bondade e também sobre o amor. Creio que não lhe escaparão os óscares de desempenho (Frances está soberba) mas também argumento e filme. Filmes assim que nos marcam o dia, quiçá a vida. 9 estrelas.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
O Zé Pedro dos Xutos
A vida do Zé Pedro dizia-me alguma coisa e tocava na minha por vários motivos que agora não interessam absolutamente nada. A quantidade inúmera de amigos que nestas últimas horas o descreveram de forma tão amorosa, alguns meus amigos também, só vem acentuar esta empatia. E podia dizer muita coisa, de muitas lembranças, momentos, cartas escritas, segredos ao ouvido. O Zé Pedro, ainda hoje "o" li na Blitz, encontrou o amor. Tinha o amor. E isso, só isso importava. E eu quando com 16 anos fui à queima ouvir Xutos (que por tantas Quintas-Feiras e Queimas se repetiu), ouvi aquela que tinha sido a música do filme Tentação. E que dizia: Para sempre, mas para sempre, vou gostar de ti. Hoje com o Zé Pedro morre um bocadinho do nosso imaginário. O que vale é que o repertório, para sempre, mas para sempre, vai ficar em nós. E acreditem. Porque o o Zé Pedro o disse e eu acredito. Só o amor vale a pena. Só ele fica. Só ele ficará.
As estrelas não morrem. Brilham!<3asas span="">3asas>
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Monsanto
Quando se casa com alguém não se casa apenas com a pessoa indivíduo. Casa-se com a familia, com os amigos, com os feitios, com as lembranças, com os sítios. Ao casar-me com o meu marido passei a ser filha de Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal. Vim cá a primeira vez no fim de 2009 quando não éramos sequer namorados. Tinha sido um ano atípico e Monsanto pareceu-me logo um tónico de juventude. A samarra, de quando o meu agora marido tinha 14 anos, assentava-me como uma luva e andava toda contente, eu, a samarra, e os chapéus que tinha roubado ao meu pai por cima do meu longo cabelo loiro por Monsanto. Voltei já oficialmente. A Adosinda, empregada da família desde que tinha 12 anos e falecida este Setembro, engraçou comigo e tratava-me como uma princesa. Quando os meus irmãos e sobrinhos cá vieram numa passagem de ano animada, o tratamento foi o mesmo. E desde então já cá estivemos em vários Verões, na altura do Boom Festival, que é a uns quilómetros daqui, no carnaval onde chocámos as velhinhas com as nossas danças mais entusiasmadas, no início do Outono quando uma lareira é remédio para todos os males, nos piqueniques de família onde pude contar com o companheirismo das minhas 3 cunhadas. Conheci primos de Monsanto, tantos que é impossível lembrar-me do nome de todos. Mas lembro-me deles, a discutir alegremente com o meu pai no meu casamento, porque é que o Minho era o melhor sitio de Portugal.
Monsanto é dos velhos que por aqui vivem, é dos boomers que de 2 em 2 anos cá vêm parar, dos turistas que alegremente suam a trepar pedra e dos primos, que têm cá casa e cá vêm carregar baterias. Monsanto não é, mas deveria ser património da humanidade e acima de tudo, e vamos lá falar a sério, nada mais interessa. É um dos meus sítios no mundo. Se já me leram, já ouviram falar de Altura, o sítio no algarve onde passo férias desde os 2 anos. Já me leram dizer: Altura é mais alto. Pelo cheiro a flor de laranjeira, pela areia, pelo mar quente. Monsanto é literalmente mais alto, rivaliza com as serras próximas, e subir ao castelo, digo-vos. Dá cabo de mim!
Às vezes digo ao meu marido: vimos para aqui, para esta casa construída em cima de duas enormes rochas, e aqui viveremos. Tu tiras sisos e eu escrevo livros. Porque Monsanto tem isso. É inspirador. Não há praia, piscina ou espreguiçadeiras, quem vem, vem simplesmente estar. Ao ritmo que se trepa o granito, a inspiração entra quando o dióxido de carbono sai. E aqui vim festejar os meus 32 anos, porque gosto da paridade, porque não quero mais nenhum 31, porque quero sentir-me inspirada, renovada e reforçada. Para o que der e vier. Nasce-se e morre-se em Monsanto, mas acima de tudo vive-se. Vive-se com mais força.
Que Monsanto nunca saia de mim ainda que eu saia de Monsanto. De carro chego mais alto, mas com o meu chapéu e a minha samarra sinto-me a planar. E isto não vem com comunhão de bens ou separação dos mesmos. Isto aloja-se no coração, tal como a Adosinnda, e não há quem tire.
Dezembro de 2015
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Anjo Mau
Quando eu era miúda tinha a mania que era poeta. Escrevia muito em prosa, mas era em verso que me expressava melhor desde que tinha uns 7 anos ou seja basicamente desde que conseguia dominar minimamente a língua Portuguesa. Muitas vezes as minhas composições nos testes de Português eram em poema, porque a minha mente organizava-se bem nesses termos e os professores não se importavam. (Uma queda gigante para o dramatismo e a fatalidade, claro vem dessa altura). Às vezes estava a andar de bicicleta e um poema aparecia na minha cabeça, ia a repeti-lo mentalmente até chegar a casa e podê-lo registar. Em casa também puxavam por mim e pediam-me poemas, às vezes à hora de jantar, tipo desafio, "ora tens até à sobremesa para fazer poema sobre tema X em soneto, nada de papéis". E eu fazia. Hoje fico feliz que me tenham feito esse tipo de desafios e dado essa atenção na fase difícil que é a pré e a adolescência. Ainda hoje, bem menos, escrevo poesia.
Hoje a rever tralhas e mais tralhas das mudanças encontrei uns diários que são absolutamente deliciosos. Começam em 1998 (tenho mais antigos num esconderijo secreto na casa do meu pai) e tenho inclusive um diário de sonhos que me leva a pensar o que eu já desconfiava: sou mais esperta a dormir do que acordada. Mas dentro da poesia há um poema nos meus 16 anos que gostava de partilhar com vocês. (Encontrei também o que veio anos mais tarde dar nome a este blog: Residência Fixa nas Nuvens). É infantil quanto baste, em rima como eu gostava, e consigo aplicá-lo no dia de hoje a algumas pessoas na minha vida. Há coisas que parecem que não mudam mesmo. Aqui vai:
Anjo Mau
Anjo Mau
Desde criança que sonhava
Com criaturas em perfeição
Sempre soube que as amava
Mesmo antes de as ver longe do chão.
Agora uma partiu-me o coração
Nela deixei de acreditar,
Sei que não merece o perdão
Que o meu ser insiste em dar.
A essa criatura entreguei:
Corpo, peito e alma.
Mas nela nem sequer abalei,
Um pouco da sua calma.
Desculpa, tantas vezes te chamei
Pelo nome que não é o teu.
Perdoa-me se me enganei,
Não passou de um erro meu.
Anjo Mau te chamei
Vezes cuja conta não tem fim.
Esquece o anjo, agora bem sei,
És apenas mau, e não é só para mim.
10 de Outubro de 2001
Young (16) Raquel
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